20090616

Porque a missao também tem momentos assim...



Eu juro que eu não queria matar a cobrinha com a enxada... :D mas ela estava a olhar para mim com um olhar esquisito...

20090608

Caminhando pela Paz


Hoje falamos de PAZ. Hoje falamos de organização comunitária. Hoje falamos de pessoas comuns que se envolvem. Hoje falamos de líderes que se unem. Hoje falamos de fronteiras que se ignoram em prol de um objectivo comum. Hoje falamos de Manicoré, uma cidade localizada no sul do Estado do Amazonas (Brasil). Hoje falamos de uma iniciativa que teria lugar em tantas outras partes do mundo... em Aveiro, em Vagos...
Em Manicoré há mais de seis meses que se vive sob clima de tensão. Essa situação começou deste o ápice do período eleitoral (2008) com a disputa de quatro candidatos a assumirem a Prefeitura Municipal. A temperatura elevou-se quando em Janeiro do corrente o prefeito eleito foi cassado por causa da irregularidade do seu vice que, por ser ex-prefeito, tinha restrições por parte do Tribunal de Contas do Estado que o deixou numa situação de inelegibilidade.

Por decisão judicial no dia 24 de março uma liminar concedeu ao segundo colocado nas eleições 2008 o direito de assumir o comando do Município. Lamentavelmente foi um dia de violenta manifestação contrária por parte de centenas de pessoas. Sob forte aparato de segurança policial o segundo colocado nas eleições tomou posse. Enquanto dentro da Câmara Municipal o novo prefeito tomava posse, fora os dois grupos de confrontavam numa triste luta por privilégios.

Preocupado com a situação de violência, insegurança, tensão nas relações interpessoais, conflito nas comunidades etc. o pároco Pe. Antônio de Assis Ribeiro (Pe. Bira), pessoalmente e usando os meios de comunicação disponíveis na cidade (rádio, TV e internet) fez um forte apelo às lideranças da cidade e geral para uma necessária reunião para se refletir sobre a concórdia.

O encontro aconteceu no dia 21 de Abril pela parte da tarde. Surpreendentemente compareceram 56 líderes representantes de várias categorias: de partidos políticos, comunidades, movimentos, pastorais, igrejas, instituições, associações, grupos, escolas, polícia, conselhos, imprensa etc.

Após colocar às claras, com sinceridade, cautela e muita firmeza o objetivo da reunião - que era aquele de despertar nos presentes o interesse pela Paz e Harmonia Social - o padre Bira afirmou: “É urgente promovermos JUNTOS a busca da harmonia social... É urgente promovermos JUNTOS a Cidadania racional estimulando a passagem do apego ao "MEU" para a consciência da defesa do “NOSSO BEM COMUM”... É urgente promovermos JUNTOS a conscientização da extrema necessidade da hierarquia de valores... É urgente promovermos JUNTOS um espaço para o exercício do Direito à Liberdade de "ir e vir" sem medo...”. Os participantes concordaram com o rumo apontado pelo líder religioso, apesar das tentativas de desvios do grande tema.

Nessa reunião foi formada uma comissão multi-partidária e inter-eclesial para organizar a promoção de uma Caminhada pela Paz para o dia 05 de maio com os seguintes objetivos:
- Promover um dinâmico momento de reflexão e conscientização sobre a necessidade de PAZ;
- Estimular o compromisso para com o “desarmamento” tomando uma atitude racional, rica de bom senso que gera tranquilidade;
- Incentivar a população à busca da comunhão e reflexão sobre a importância do compromisso de uns para com os outros, independente de sua opção política.
O evento aconteceu conforme a programação: centenas de pessoas de todas as idades e condição social, ideologia política e confissão religiosa se reuniram na praça da Bandeira, em frente a Prefeitura, às 17:00 horas e iniciaram cantando e refletindo, repetindo refrões e palavras, empunhando frases e faixas numa animada caminhada pela Paz. Ao longo do percurso foram realizadas três paradas e em cada uma delas foi feita uma reflexão conduzida pelos líderes religiosos (de várias confissões) da cidade.
Aconteceu em Manicoré, porque alguém se inquietou e teve a coragem de iniciar a luta pelo bem comum. Aconteceu em Manicoré porque alguém não se acomodou mais, porque alguém se cansou de ouvir lamentos em sussurro. É exemplo de gigante de uma pequena cidade perdida no interior da Amazónia para todos os que, no chamado “Primeiro Mundo” se queixam em silêncio mas não avançam na busca por uma solução comum. É um exemplo para as lideranças políticas, religiosas e sociais que responderam ao apelo. É um exemplo para os líderes religiosos que saem da segurança das suas igrejas e se envolvem nas causas do povo, seguindo o exemplo do próprio Jesus Cristo. É um exemplo para os cidadãos que, embora antes paralizados pelo medo, confiaram e se juntaram ao movimento pelo seu bem comum.
Aconteceu em Manicoré...

Texto baseado em material de divulgação da campanha e artigo PASCOM
Foto de www.manicoreonline.com

20090606

De viagem por... Uruapiara



A paróquia de Auxiliadora encontra-se na margem do Madeira , bem próximo da entrada do lago Uruapiara. A população de Auxiliadora (aprox. 2000 pessoas) e das comunidades circundantes vêem sua fé alimentada através da presença de duas Irmãs Missionárias, Ir. Gema e Ir. Claudete, que se encontram na região por meio de um projeto de vivência missionária intercongregacional da CRB. Existe, então, um plano de cooperação entre as paróquias de N.S. das Dores e Auxiliadora, sobretudo para a presença do sacerdote em momentos chave da comunidade.

Os festejos em honra de N.S. Auxiliadora constituiram a motivação para uma visita do Pe. Antônio de Assis Ribeiro (Pe. Bira) à região entre os dias 21 e 26 de Maio. A presença foi marcada, sobretudo, pelas Celebrações Eucarísticas, Celebrações de Batismo, bem como pelo simples estar entre o povo, disponível para conversar, para ouvir, propor...

A chegada a Auxiliadora foi uma agradável surpresa: encontra-se mais organizada, mais limpa, mais cuidada. Mesmo a nível da educação se vêem progressos, já estando disponível o ensino médio regular (até há pouco tempo, tinha apenas o ensino médio modular). A população atribui as transformações aos novos líderes políticos.

Também os jovens se fazem mais presentes na Igreja. A comunidade conta agora com um grupo de 30 jovens organizados, são o grupo JUAX. Existe ainda bem consolidado um grupo de aproximadamente 15 coroinhas. O seu envolvimento nos festejos foi visível: animação da liturgia, encenação teatral sobre a vida de Maria de Nazaré, venda de cartelas de Bingo, entre outros.

Os festejos, reforçados pela presença das comunidades vizinhas, foram apenas prejudicados pelas fortes chuvas que impediram mesmo a saída da procissão.

A visita do sacerdote foi ainda potenciada pela visita à comunidade de Floresta. O objetivo era a celebração de quatro matrimónios e sete batizados. A visita a esta comunidade foi mais uma agradável surpresa. A população, composta por cerca de 30 famílias, contraria o tradicional modo de ser e estar do amazónida, em especial do povo ribeirinho. Uma comunidade animada, efusiva, participativa, dinâmica e surpreendentemente jovem. Os jovens, bem organizados, estão na coordenação da liturgia, da catequese e mesmo da comunidade: a líder da comunidade tem 20 anos! Sem dúvida, um exemplo a reter para as demais comunidades. Floresta, a três horas de Auxiliadora, na margem do rio Ipichuna, uma comunidade com ensino apenas até 4ª série. Uma comunidade que é diferente. Uma comunidade de verdadeiros líderes. Uma comunidade que desafia as outras a seguirem o seu dinamismo de vida social e cristã. Infelizmente esta é a exceção, infelizmente são demais as comunidades envelhecidas e enfraquecidas. Mas esta também é a esperança, a prova de que pode ser diferente.

Os desafios no interior multiplicam-se, bons líderes precisam-se!

Sónia Pinho
Artigo publicado em www.isma.org.br

Um dia de Chuva








Há muito tempo que não escrevo.... falta de tempo, internet que não colabora ou mesmo... preguiça... tenho que confessar... a vontade de partilha é tanta que em muitas situações que vivo, em muitos lugares que estou... vou imaginando as pessoas que gostaria que estivem ali, vivendo aquele momento comigo... porque não é justo que só eu os viva... os bons, porque mais pessoas os merecem viver... os maus, porque mais pessoas merecem aprender. Então vão passando pela minha mente as pessoas, conforme os momentos... logo penso: quando chegar a casa vou escrever sobre isto... mas depois... demora ainda umas horas a chegar a casa... quando chego a casa logo o dilema: dormir ou escrever... já sobram poucas horas para dormir... ou... ainda poderia preparar aquele ou o outro trabalho para amanha... então, acabo a maioria das vezes por esquecer o blog... e rezar para que o meu desejo de que estivessem presentes naqueles momentos tenha passado para vocês, por meio de alguma magia especial.

Mas hoje... hoje os planos eram mais que muitos. O dia estava CHEIO!!! Mas... está chovendo há umas cinco horas sem parar... os planos foram “por água abaixo”, literalmente... ah! E como quando chove, a internet não funciona, vou escrevendo offline, sem caír na tentação de falar com alguém que esteja on neste momento...

Isto de os meus planos para esta manha (espero que não os do resto do dia) terem sido gorados pela chuva leva-me a uma reflexão sobre a dependência do clima aqui na Amazónia. O tempo tem dois estados: chuva forte ou sol forte. Então tudo fica dependente... Quando chove muito, as roças e plantações ficam alagadas, muitas vezes destruindo culturas inteiras e, consequentemente, o meio de sobrevivência de famílias inteiras. Quando chove ,não dá para saír para pescar, o que em muitas comunidades significa a ausência de proteínas para aquele dia. Quando chove, a produção de tijolos atrasa vários dias (os tijolos sao produzidos de forma artesanal, dependendo do sol para secarem antes de irem para o forno). Quando chove, as escolas não funcionam, porque os alunos ficaram “ilhados” em seus bairros, ou porque vêm do interior e os barcos não os transportam com chuva. Quando chove, as pessoas não vêm para a missa. Quando chove...

É urgente que se perceba a necessidade de criar mecanismos que atenuem a dependência do clima... As pessoas vivem ao sabor das chuvas... Mas aos poucos vão-se mudando mentalidades... aos poucos... à velocidade da natureza...

E os planos para esta manhã...

Com os interiores ao abandono pelo poder municipal, as cidades vão crescendo... As pessoas migram para as cidades em busca de uma vida melhor, que muitas vezes não encontram. Migram sem qualquer planeamento, migram simplesmente... assim se formam as áreas de ocupação. Um terreno abandonado, um líder arrojado, uma possibilidade.

Aqui em Manicoré as mais recentes áreas de ocupação são o bairro Andarai e a comunidade Presidente Lula. No primeiro, começaram os trabalhos da igreja católica há cerca de oito meses. É agora comunidade de N.ª Sr.ª de Guadalupe, tem igreja, os jovens estão-se aproximando. Tem momentos de lazer saudável para crianças, adolescentes e jovens. Tem momentos de oração. Muito caminho há ainda para percorrer, é certo, mas o salto dado por aquela comunidade foi de gigante. E o mais bonito foi que foi fruto da solidariedade das restantes comunidades.

Agora surge um novo desafio na comunidade “Presidente Lula”, onde algumas dezenas de famílias vivem em situações dramáticas: idosos abandonados, adultos sem trabalho, crianças sem escola que crescem sem qualquer referencial de vida digna... Algumas pessoas meteram o pé na lama e perceberam que era urgente dar uma resposta aquela situação. O desafio foi lançado e mais uma onda de solidariedade se iniciou... Hoje teríamos vários motirões (trabalho conjunto) lá, para limpar um terreno que se destina a construção da igreja e espaços adjacentes e para fazer cadastramento das famílias para articular as respostas a dar à comunidade. Mas choveu... para lá tudo está alagado. É impossível desenvolver algum trabalho hoje... é frustrante... mas...que fazer!

Estamos ainda no início, acredito que no processo de formação desta nova comunidade muitas “chuvas” virão ainda... Mas muito “sol” também! Tenho a certeza!

20090306

No aconchego da Amazonia II

Breve nota explicativa: este texto foi escrito há cerca de 2 semanas atrás, mas só agora tive os meios e a disponibilidade para o publicar...



Primeiro dia de viagem, a bordo do "Cidade de Manicoré". Qual criança pequena, olho deslumbrada para o colorido das redes que balançam suaves nos dois convés, ouço os ruídos ecoados por algumas centenas de pessoas e várias toneladas de mercadoria com as quais partilharei os próximos dias. Subo rapidamente á àrea superior a "área de lazer" e fico ali, só contemplando o presente magnífico que a natureza me oferece naquele momento. O "encontro das águas": Rio Solimões (Amazonas) e Rio Negro encontram-se e seguem lado a lado, sem se misturarem. Aos poucos a água negra entra na água barrenta, aos poucos uma recua, a outra avança. Aos poucos cria-se a dança das águas que convivem sem perder a sua essência...



A minha mente vagueia por um milhão de analogias possíveis nas relações humanas... . Como seria bom, se como reflexo das águas, cada pessoa ou mesmo cada nação respeitasse a outra na sua unicidade e permanecessem lado a lado, num constante jogo de receber-oferecer. Utopia?

De volta ao convés, rapidamente surgem as conversas, um olá aqui, um sorriso ali, e assim, naturalmente começo a conhecer as histórias de vida que viajam comigo. Uma verdadeira amostra do povo manicoreense. Ali viaja a mãe adolescente com a filha e a avó-mãe, mas também noutra família, o pai adolescente. Viaja o jovem e o menos jovem que foram para a cidade grande na busca de um emprego melhor, na senda de uma vida mais digna, e que voltam três meses de miséria depois. Não encontraram trabalho nem vida mais digna. Viaja o cidadão consciente e activo que sofre com as injustiças políticas na sua cidade, mas também o cidadão "classe alta" que encontrou uma forma de subir na vida em troca de "pequenos favores políticos". As histórias sucedem-se... e eu... eu procuro ouvir apenas...

Durante a noite, o romantismo imaginado de dormir na rede pendurada no convés de um barco foi rapidamente desmistificado, para logo ganhar novo significado. No convés, sobrelotado, as redes sobrepõe-se, cruzam-se num equilíbrio ténue. O espaço entre elas é apenas o suficiente para não se encostarem. A sensação de aperto, de falta de espaço. Mas a rede embala, protege... e chega a sensaçao de aconchego. O aconchego de uma rede pendurada no convés de um barco que navega no rio Amazonas. Não havendo palavras para descrever a sensação, chamo-lhe apenas paz... paz interior...

A viagem continua, mais um dia, mais uma noite e um novo dia. A cada paragem uma nova movimentação: pessoas que entram, pessoas que saem, mercadorias que entram, mercadorias que saem. Na verdade, a chegada do barco representa para muitos a oportunidade de ganhar o dinheiro para o arroz e feijao do dia. Enquanto ancora na margem, logo os pequenos vendedores de tapioquinhas e bombons de cupuaçu saltam para o barco, os carregadores corpulentos logo começam a descarregar as mercadorias, os moto-taxis aguardam na esperança de mais um transporte. Entre as mercadorias encontra-se quase tudo, móveis novos e usados, electrodomésticos novos e usados, batatas fritas, refrigerantes, águas, motos e tantas outras coisas. É assustadora a dependência que as cidades do interior ainda vivem face à capital...

Alguém perto de mim comenta: estamos a chegar! Fecho momentaneamente os olhos e rezo uma pequena oração pedindo a Deus a força, a abertura de espírito, a inteligência, a doação necessárias para mais este recomeço...

Já se avista Manicoré.

Chegamos.

20090211

Encontros II


Família, companheiros de luta, amigos, bagunçeiros, sonhadores... alguns dos rostos que encontrei e guardei. Alguns dos rostos que descobri e me descobriram. Algumas pessoas que estão comigo, aqui.