
Eu juro que eu não queria matar a cobrinha com a enxada... :D mas ela estava a olhar para mim com um olhar esquisito...

A paróquia de Auxiliadora encontra-se na margem do Madeira , bem próximo da entrada do lago Uruapiara. A população de Auxiliadora (aprox. 2000 pessoas) e das comunidades circundantes vêem sua fé alimentada através da presença de duas Irmãs Missionárias, Ir. Gema e Ir. Claudete, que se encontram na região por meio de um projeto de vivência missionária intercongregacional da CRB. Existe, então, um plano de cooperação entre as paróquias de N.S. das Dores e Auxiliadora, sobretudo para a presença do sacerdote em momentos chave da comunidade.
Os festejos em honra de N.S. Auxiliadora constituiram a motivação para uma visita do Pe. Antônio de Assis Ribeiro (Pe. Bira) à região entre os dias 21 e 26 de Maio. A presença foi marcada, sobretudo, pelas Celebrações Eucarísticas, Celebrações de Batismo, bem como pelo simples estar entre o povo, disponível para conversar, para ouvir, propor...
A chegada a Auxiliadora foi uma agradável surpresa: encontra-se mais organizada, mais limpa, mais cuidada. Mesmo a nível da educação se vêem progressos, já estando disponível o ensino médio regular (até há pouco tempo, tinha apenas o ensino médio modular). A população atribui as transformações aos novos líderes políticos.
Também os jovens se fazem mais presentes na Igreja. A comunidade conta agora com um grupo de 30 jovens organizados, são o grupo JUAX. Existe ainda bem consolidado um grupo de aproximadamente 15 coroinhas. O seu envolvimento nos festejos foi visível: animação da liturgia, encenação teatral sobre a vida de Maria de Nazaré, venda de cartelas de Bingo, entre outros.
Os festejos, reforçados pela presença das comunidades vizinhas, foram apenas prejudicados pelas fortes chuvas que impediram mesmo a saída da procissão.
A visita do sacerdote foi ainda potenciada pela visita à comunidade de Floresta. O objetivo era a celebração de quatro matrimónios e sete batizados. A visita a esta comunidade foi mais uma agradável surpresa. A população, composta por cerca de 30 famílias, contraria o tradicional modo de ser e estar do amazónida, em especial do povo ribeirinho. Uma comunidade animada, efusiva, participativa, dinâmica e surpreendentemente jovem. Os jovens, bem organizados, estão na coordenação da liturgia, da catequese e mesmo da comunidade: a líder da comunidade tem 20 anos! Sem dúvida, um exemplo a reter para as demais comunidades. Floresta, a três horas de Auxiliadora, na margem do rio Ipichuna, uma comunidade com ensino apenas até 4ª série. Uma comunidade que é diferente. Uma comunidade de verdadeiros líderes. Uma comunidade que desafia as outras a seguirem o seu dinamismo de vida social e cristã. Infelizmente esta é a exceção, infelizmente são demais as comunidades envelhecidas e enfraquecidas. Mas esta também é a esperança, a prova de que pode ser diferente.
Os desafios no interior multiplicam-se, bons líderes precisam-se!
Sónia Pinho
Há muito tempo que não escrevo.... falta de tempo, internet que não colabora ou mesmo... preguiça... tenho que confessar... a vontade de partilha é tanta que em muitas situações que vivo, em muitos lugares que estou... vou imaginando as pessoas que gostaria que estivem ali, vivendo aquele momento comigo... porque não é justo que só eu os viva... os bons, porque mais pessoas os merecem viver... os maus, porque mais pessoas merecem aprender. Então vão passando pela minha mente as pessoas, conforme os momentos... logo penso: quando chegar a casa vou escrever sobre isto... mas depois... demora ainda umas horas a chegar a casa... quando chego a casa logo o dilema: dormir ou escrever... já sobram poucas horas para dormir... ou... ainda poderia preparar aquele ou o outro trabalho para amanha... então, acabo a maioria das vezes por esquecer o blog... e rezar para que o meu desejo de que estivessem presentes naqueles momentos tenha passado para vocês, por meio de alguma magia especial.
Mas hoje... hoje os planos eram mais que muitos. O dia estava CHEIO!!! Mas... está chovendo há umas cinco horas sem parar... os planos foram “por água abaixo”, literalmente... ah! E como quando chove, a internet não funciona, vou escrevendo offline, sem caír na tentação de falar com alguém que esteja on neste momento...
Isto de os meus planos para esta manha (espero que não os do resto do dia) terem sido gorados pela chuva leva-me a uma reflexão sobre a dependência do clima aqui na Amazónia. O tempo tem dois estados: chuva forte ou sol forte. Então tudo fica dependente... Quando chove muito, as roças e plantações ficam alagadas, muitas vezes destruindo culturas inteiras e, consequentemente, o meio de sobrevivência de famílias inteiras. Quando chove ,não dá para saír para pescar, o que em muitas comunidades significa a ausência de proteínas para aquele dia. Quando chove, a produção de tijolos atrasa vários dias (os tijolos sao produzidos de forma artesanal, dependendo do sol para secarem antes de irem para o forno). Quando chove, as escolas não funcionam, porque os alunos ficaram “ilhados” em seus bairros, ou porque vêm do interior e os barcos não os transportam com chuva. Quando chove, as pessoas não vêm para a missa. Quando chove...
É urgente que se perceba a necessidade de criar mecanismos que atenuem a dependência do clima... As pessoas vivem ao sabor das chuvas... Mas aos poucos vão-se mudando mentalidades... aos poucos... à velocidade da natureza...
E os planos para esta manhã...
Com os interiores ao abandono pelo poder municipal, as cidades vão crescendo... As pessoas migram para as cidades em busca de uma vida melhor, que muitas vezes não encontram. Migram sem qualquer planeamento, migram simplesmente... assim se formam as áreas de ocupação. Um terreno abandonado, um líder arrojado, uma possibilidade.
Aqui em Manicoré as mais recentes áreas de ocupação são o bairro Andarai e a comunidade Presidente Lula. No primeiro, começaram os trabalhos da igreja católica há cerca de oito meses. É agora comunidade de N.ª Sr.ª de Guadalupe, tem igreja, os jovens estão-se aproximando. Tem momentos de lazer saudável para crianças, adolescentes e jovens. Tem momentos de oração. Muito caminho há ainda para percorrer, é certo, mas o salto dado por aquela comunidade foi de gigante. E o mais bonito foi que foi fruto da solidariedade das restantes comunidades.
Agora surge um novo desafio na comunidade “Presidente Lula”, onde algumas dezenas de famílias vivem em situações dramáticas: idosos abandonados, adultos sem trabalho, crianças sem escola que crescem sem qualquer referencial de vida digna... Algumas pessoas meteram o pé na lama e perceberam que era urgente dar uma resposta aquela situação. O desafio foi lançado e mais uma onda de solidariedade se iniciou... Hoje teríamos vários motirões (trabalho conjunto) lá, para limpar um terreno que se destina a construção da igreja e espaços adjacentes e para fazer cadastramento das famílias para articular as respostas a dar à comunidade. Mas choveu... para lá tudo está alagado. É impossível desenvolver algum trabalho hoje... é frustrante... mas...que fazer!
Estamos ainda no início, acredito que no processo de formação desta nova comunidade muitas “chuvas” virão ainda... Mas muito “sol” também! Tenho a certeza!